O crescimento exponencial do uso de baterias de lítio em eletrônicos, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia trouxe ganhos tecnológicos significativos, mas também novos desafios logísticos e de segurança.
Esse crescimento foi acompanhado por um aumento acentuado nos acidentes de segurança, com operadores de carga aérea, nas remessas de baterias de lítio e nos eventos de fuga térmica durante o transporte.
Em resposta a este cenário envolvendo incêndios em cargas aéreas e terrestres, organismos reguladores internacionais atualizaram orientações para o transporte seguro dessas baterias, especialmente no modal aéreo.
As diretrizes mais recentes reforçam controles operacionais, requisitos de embalagem e limites técnicos que impactam diretamente o planejamento logístico, o gerenciamento de riscos e a segurança ocupacional.
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ToggleO Desafio Fundamental da Logística e do Uso de Baterias de Lítio
As baterias de lítio ocupam um nicho único e perigoso na classificação de mercadorias perigosas. Ao contrário da maioria dos materiais no sistema de classificação das Nações Unidas (ONU), as baterias de lítio não se encaixam perfeitamente em categorias tradicionais, como Líquidos Inflamáveis (Classe 3) ou Corrosivos (Classe 8), apesar de possuírem características de ambas.
Elas são classificadas na Classe 9: Mercadorias Perigosas Diversas, porque representam um risco multifacetado que pode evoluir de forma rápida e imprevisível. O ponto crucial do desafio reside no fato de que uma bateria de lítio é um reator químico autossuficiente.
A bateria abriga tanto o combustível (o eletrólito orgânico) quanto o oxidante (o cátodo de óxido metálico) em um único invólucro, o que significa que, uma vez iniciado o incêndio, ele não pode ser extinto pela remoção do oxigênio atmosférico, um princípio fundamental da maioria dos sistemas de supressão de incêndio em aeronaves.
O Mecanismo da Fuga Térmica e os Riscos da Altitude
O principal perigo associado ao transporte e uso das baterias de lítio é a fuga térmica, uma reação química descontrolada e auto aquecida. Esse fenômeno geralmente é iniciado por abuso mecânico, sobrecarga elétrica ou defeitos internos de fabricação que levam a um curto-circuito localizado.
Quando a temperatura interna de uma célula atinge um limite crítico, geralmente entre 70°C e 90°C, a camada de eletrólito sólido interfacial começa a se decompor exotermicamente.
Essa liberação inicial de calor desencadeia uma cascata de reações adicionais: o separador derrete, o ânodo e o cátodo entram em contato direto e o eletrólito orgânico vaporiza, criando alta pressão interna.
A complexidade da fuga térmica aumenta em grandes altitudes. Embora as temperaturas mais baixas encontradas nos porões de carga possam parecer benéficas, a pressão ambiente reduzida, pode fazer com que a carcaça da bateria inche ou se expanda.
Se uma célula já estiver sob pressão interna devido a uma pequena falha, a pressão externa mais baixa na cabine de uma aeronave ou no compartimento de carga, pode levar a uma ruptura prematura das válvulas de segurança ou a uma falha catastrófica da carcaça da célula.
Baixa pressão
Pesquisas indicam que, embora a baixa pressão possa tecnicamente reduzir a intensidade de uma chama aberta, limitando o oxigênio, ela acelera significativamente a liberação de gases inflamáveis, como hidrogênio e hidrocarbonetos, que podem se acumular em um compartimento de carga e criar uma atmosfera explosiva.
Calor intenso
Além disso, o calor intenso gerado durante a fuga térmica, frequentemente excedendo 1.100°C, é suficiente para derreter alumínio de grau aeronáutico, comprometendo potencialmente a integridade estrutural da fuselagem antes mesmo que os sistemas de supressão de incêndio a bordo possam ser totalmente ativados.
As Novas Regras da IATA para 2026
A 67ª edição do Regulamento de Mercadorias Perigosas (DGR) da IATA introduz uma mudança de paradigma na forma como os produtos de armazenamento de energia são organizados e preparados para o transporte aéreo.
1. Requisito e Obrigações do Estado de Carga
O desenvolvimento mais significativo é a expansão do limite de 30% do Estado de Carga (SoC) de baterias individuais para baterias acondicionadas ou contidas em equipamentos.
Essa mudança reflete um consenso entre a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) e a IATA de que reduzir o nível de carga é o método mais eficaz para mitigar tanto a probabilidade de um evento de fuga térmica quanto sua gravidade, caso ocorra.
A partir de 1º de janeiro de 2026, o limite de SoC torna-se um requisito operacional obrigatório para uma ampla gama de produtos de íon-lítio que anteriormente eram isentos ou sujeitos apenas a recomendações.
2. Alterações na Marcação e Rotulagem
O DGR 2026 introduz mudanças críticas na identificação visual de remessas de baterias. Essas modificações visam eliminar ambiguidades para os operadores de solo e garantir que diferentes composições químicas de baterias, especificamente o crescente setor de íon-sódio, sejam manuseadas com a devida cautela.
Uma das mudanças mais notáveis é a revisão da marcação no uso de baterias de lítio. Durante anos, a exigência de incluir um número de telefone na marcação para “informações adicionais” tem sido uma fonte de atrito logístico, muitas vezes levando à rejeição de remessas se o número fosse considerado inacessível ou incorreto.
De acordo com as regras de 2026, o número de telefone torna-se opcional até 31 de dezembro de 2026, após o qual será removido permanentemente do design da marca.
A marcação de bateria atualizada agora deve exibir claramente o(s) número(s) ONU aplicável(eis) para diferenciar os tipos de bateria. Isso é essencial porque as baterias de íon-lítio (UN 3480/3481), lítio-metal (UN 3090/3091) e as novas baterias de íon-sódio (UN 3551/3552) exigem protocolos de resposta a emergências diferentes.
A distinção entre íon-lítio e lítio-metal continua sendo crucial devido aos seus diferentes perfis de combustão. Incêndios em baterias de íon-lítio são caracterizados pela queima de eletrólitos orgânicos, enquanto incêndios em baterias de lítio metálico envolvem a combustão do próprio lítio metálico, que reage violentamente com a água e requer agentes extintores especializados da Classe D.
As diretrizes de 2026 reforçam essa distinção por meio da renumeração das disposições relativas a passageiros, e controles mais rigorosos sobre a rotulagem, “Somente para Aeronaves de Carga” (CAO) para baterias independentes, que são proibidas em aviões de passageiros.
3. Embalagens Rígidas
A integridade estrutural da embalagem é a última linha de defesa contra a propagação de uma falha localizada da bateria para um evento catastrófico. Os regulamentos de 2026 enfatizam o uso de “embalagens externas rígidas e resistentes” e introduzem novos testes baseados em desempenho.
Uma exigência adicional importante para 2026 é o teste de empilhamento de 3 metros para baterias de lítio embaladas com ou contidas em equipamentos (PI 966 e PI 967). Este teste simula as pressões extremas encontradas em ambientes de carga de alto volume.
• Teste de Empilhamento de 3 Metros
Cada embalagem completa deve ser capaz de suportar uma força aplicada à sua superfície superior equivalente ao peso total de embalagens idênticas empilhadas a uma altura de 3 metros.
O teste deve durar 24 horas e os critérios de aprovação exigem que não haja danos às células ou baterias internas e nenhuma redução na eficácia da integridade estrutural da embalagem.
• Teste de Queda de 1,2 Metros
Para remessas da Seção II, a embalagem deve permanecer capaz de suportar uma queda de 1,2 metros sobre uma superfície rígida. Este teste é realizado em cinco orientações (inferior, superior, lateral longa, lateral curta e canto) para garantir que o conteúdo interno não se desloque e que os terminais não entrem em contato uns com os outros ou com superfícies condutoras.
Impacto do Uso de Baterias de Lítio no PGR
As novas diretrizes da IATA se cruzam diretamente com as leis nacionais de saúde e segurança ocupacional, principalmente com a Norma Regulamentadora NR-01, que rege o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
O transporte e o manuseio de baterias de lítio não são mais vistos apenas como um desafio logístico, mas como um risco significativo no local de trabalho que deve ser documentado e mitigado dentro da estrutura interna de segurança da empresa.
Integração com a NR-01 e o Inventário de Riscos
O PGR exige um Inventário de Riscos abrangente que identifique os riscos físicos, químicos e biológicos. De acordo com a estrutura de 2026, qualquer instalação que manuseie, armazene ou prepare baterias de lítio para transporte aéreo deve atualizar seu Inventário de Riscos para refletir o potencial de fuga térmica e a liberação de gases tóxicos.
Exposição a gases tóxicos – Quando as baterias de lítio falham, liberam uma mistura de substâncias perigosas, incluindo fluoreto de hidrogênio (HF), monóxido de carbono (CO) e compostos orgânicos voláteis (COVs).
O PGR deve levar em consideração os riscos respiratórios que essas substâncias representam para os trabalhadores em ambientes fechados, como armazéns e docas de carga.
Impacto das mudanças no uso de baterias de lítio
As atualizações do DGR de 2026 soam como um catalisador para uma modernização mais ampla da gestão de materiais perigosos. A conformidade não pode ser alcançada por meio de uma sessão de treinamento única, mas requer uma revisão sistemática de toda a cadeia de suprimentos, desde a aquisição de matéria-prima até a entrega ao cliente final.
1. Treinamento Baseado em Competências para Equipes de Carga
As diretrizes de 2026 reforçam a mudança para treinamento e avaliação “baseados em competências”. Para o pessoal que lida com remessas da Seção II, a certificação formal em Mercadorias Perigosas pode não ser exigida, mas eles devem receber “instrução adequada” que seja documentada e atualizada periodicamente.
2. Atualização de Inventários e Fichas de Dados de Segurança (FDS)
Uma tarefa crítica para 2026 é a conciliação dos inventários de produtos perigosos com os novos números da ONU. A introdução das baterias de íon-sódio e a reclassificação dos veículos movidos a lítio (UN 3556/3557) significam que as FDS antigas podem não estar mais em conformidade com a legislação.
ABNT NBR 14725:2023 – Consultorias recomendam que todas as FDS sejam atualizadas para atender à norma vigente, que inclui dados mais detalhados sobre os produtos da decomposição térmica das baterias.
Auditorias de Inventário – As empresas devem identificar quaisquer produtos anteriormente classificados sob a rubrica geral “Veículos Movidos a Bateria” (UN 3171) e transferi-los para as classificações específicas de íon-lítio ou íon-sódio para evitar atrasos na entrada nos portos.
3. EPI Especializado para Baterias Danificadas e Instáveis
O manuseio de baterias danificadas, defeituosas ou recolhidas (DDR) é a atividade de maior risco no ciclo de vida da bateria. Recomenda-se um kit de EPI especializado que vá além dos equipamentos padrão de armazém.
Resistência Térmica e ao Fogo – O manuseio de células danificadas exige o uso de luvas e aventais aluminizados ou resistentes a altas temperaturas, capazes de suportar temperaturas acima de 1.000°C em caso de incêndio.
Proteção Química e contra Gases – Devido ao risco de inalação de gás fluoreto de hidrogênio, altamente corrosivo e capaz de causar danos profundos aos tecidos, devem ser adotados os EPIs específicos e corretos para a prevenção de acidentes e da saúde dos trabalhadores.
Consequências da não conformidade no uso de baterias de lítio
O ambiente regulatório de 2026 deixa pouca margem para erros. As penalidades por não conformidade são estruturadas para serem punitivas o suficiente, enfatizando, em vez disso, a responsabilidade legal e ética do expedidor.
Multas
No Brasil, a ANAC tem autoridade para aplicar multas significativas, de acordo com a RBAC 175, por violações dos protocolos de mercadorias perigosas. O impacto financeiro de uma única remessa não conforme pode ser devastador.
Reputação
Além das penalidades financeiras, o impacto na reputação pode ser permanente. As companhias aéreas globais mantêm “listas negras” de remetentes que violam consistentemente as regras de SoC (estado de carga) ou de rotulagem.
Ser banido de uma grande companhia aérea pode efetivamente isolar um fabricante dos mercados globais, principalmente para eletrônicos sensíveis ao tempo.
Riscos de segurança
A consequência final da não conformidade é a perda de vidas e a destruição de aeronaves. As regulamentações de 2026 não são meros obstáculos burocráticos; são barreiras de segurança projetadas para evitar a repetição de acidentes já ocorridos.
Em um setor em que um incêndio pode levar à perda dos controles de voo em menos de quatro minutos, a “margem de segurança” é pequena. Os remetentes que não cumprem as normas não estão apenas arriscando multas, mas também assumindo a responsabilidade moral e legal pela potencial morte de membros da tripulação e pela perda de ativos multimilionários.
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