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Você já ouviu falar sobre toxicologia? Entenda tudo aqui

Quando você lê ou ouve o termo “toxicologia”, o que você pensa? Normalmente, a palavra está associada a uma conotação negativa. Então, a primeira impressão é sempre de uma substância ou algo nocivo para nós. Mas isso não é necessariamente uma verdade. O termo abrange muito mais do que essa simples análise. Vamos entender mais abaixo o que é toxicologia e as suas aplicações no nosso dia a dia.

O que é toxicologia?

Trata-se de uma ciência que tem como objetivo compreender a interação entre substâncias químicas e o organismo sob condições específicas de exposição. Assim como também serve para mapear os efeitos nocivos que essa interação provoca. Alguns exemplos de efeitos nocivos são: irritação ocular, danos hepáticos, propagação de doenças (cirrose hepática e pulmonar), desenvolvimento de câncer, entre outros.

Contexto histórico

Mas, antes de destrinchar o que é toxicologia na prática, vale lembrar como se originou essa ciência. Afinal, desde a pré-história, o homem buscava encontrar substâncias tóxicas que pudessem ser empregadas para caçar, guerrear e assassinar. Uma busca incansável para conhecer venenos de animais e de plantas tóxicas.

Para guerrear, há relatos desde 600 a.C.. Na época, os atenienses já usaram o conceito. Então, envenenaram um rio com raiz de Heléboro para que os inimigos consumissem essa água contaminada. E o que acontecia? Após o consumo, os seus adversários apresentavam intensa diarreia, pois a raiz é um drástico laxante.

>Veja também: Armas Químicas: O mau uso da toxicologia

 

E existiram outros casos:

  • 429 a.C.: os espartanos queimaram enxofre para produzir fumos tóxicos e gases sufocantes durante a Guerra do Peloponeso.
  • 200 a.C.: Cartago derrotou os inimigos após contaminar tonéis de vinho com Mandrágora, uma raiz que provoca sono narcótico. Depois da ingestão da bebida pelos soldados inimigos, os cartagineses voltaram e os mataram.
  • 190 a.C.: Aníbal, em uma batalha Naval contra Eumenes II, de Pérgamo, lançou cobras venenosas nos conveses de navios inimigos para derrotar os pergamenos. Ainda usou substâncias venenosas nas pontas de flechas para dispará-las contra os inimigos.
  • Antigo Egito: Mitrídates, rei do Ponto, atualmente Turquia, entre 120 a 63 a.C., também pesquisava substâncias. Mas, na época, nem se sabia ainda o que é toxicologia. Assim, o rei desejava conhecer os venenos e seus antídotos. Conta-se que ele queria se imunizar contra um eventual envenenamento, o que ficou conhecido como mitridatismo. Segundo relatos, após uma derrota na guerra, ele tentou o suicídio por envenenamento. Porém, não houve efeito e ele pediu que seu servo o matasse com uma espada.
  • Grécia Antiga: a toxicologia se espalhava por lá. Utilizava-se como veneno uma planta chamada cicuta (Conium maculatum) para execuções. O notório filósofo Sócrates, por exemplo, foi envenenado com essa erva. Além desse episódio, a mãe de Alexandre, o Grande, também se tornou uma famosa envenenadora. Ela esteve envolvida nas mortes de homens e mulheres proeminentes. Nesta época, os gregos chamavam de Toxikón o ato de impregnar flechas com veneno.
  • Roma Antiga: era empregado como veneno o acônito (Aconitum napellus sp), que possui um alcalóide tóxico, a aconitina. Desse momento histórico existem relatos de muitos envenenamentos de pessoas da alta sociedade romana. As envenenadoras famosas foram Agripnina e Locusta.

>Veja também: Envenenamento por Novichok-A230

O combate aos venenos

Em outros países, a prática também era adotada. Na Itália, a madame Giulia Toffana era uma envenenadora famosa. Então, desenvolveu a “Acqua Toffana” que continha trióxido de arsênio em sua composição. Estima-se que ela seja responsável por mais de 600 mortes.

Enquanto isso, na França, a envenenadora famosa foi Catherine Deshayes. Ela criou o “Pó de herança”, contendo arsênio, aconita, beladona e ópio. Catherine fornecia o pó para as mulheres proeminentes da sociedade envenenarem os seus maridos.

Neste cenário, com muitas mortes por substâncias tóxicas, começou um movimento contrário, combatendo a prática. Com isso, surgiu em 81 a.C., a primeira lei contra o envenenamento, chamada de “Lex Cornelia de sicarris et veneficis”.

 

 

A evolução: dos venenos para a toxicologia

Com o decorrer da história, chegamos à fase científica da toxicologia. Um personagem fundamental aqui foi o químico e médico espanhol, Mateo José Buenaventura Orfila Rotger (conhecido como Mateu Orfila e Mathieu Orfila). Inclusive, por seu papel relevante, foi nomeado como “pai da toxicologia” escrevendo o Traité de Toxicologie.

Neste momento, o conceito de o que é toxicologia se consolidou, a ciência ganhou força e houve avanços importantes na área. Confira alguns passos:

  • A ciência da toxicologia separada da farmacologia.
  • A toxicologia forense e os exames químicos de amostras biológicas.
  • As análises toxicológicas descritas por Marsh (1836), Reinsh (1841), Frezenius e Babo (1846).
  • Os estudos dos mecanismos de ação da estricnina, monóxido de carbono, entre outros.
  • Ehrlich propôs a teoria dos receptores, mecanismo que é aceito até hoje.

Os estudos da toxicologia se aperfeiçoam e são desenvolvidos novos antídotos. Por exemplo, o BAL, o nitrito e o tiossulfato de sódio para intoxicações por cianeto. Além disso, novos tóxicos também são criados como os organoclorados e organofosforados.

E foi após a Segunda Guerra Mundial que a toxicologia teve grande desenvolvimento. Foram implementados diversos mecanismos de ação, toxicologia comportamental, ecotoxicologia, entre outras áreas.

>Veja também: Um triste uso da toxicidade – o zyklon

O que compõe a toxicologia?

Mas calma lá que vamos te ajudar a entender melhor o que é toxicologia e como funciona esse processo. Por isso, veja alguns conceitos importantes:

Agente tóxico, toxicante ou xenobiótico: Substância, de estrutura química definida, capaz de produzir um efeito nocivo através de sua interação com um organismo vivo.

Toxicidade: Capacidade inerente da substância química de produzir efeito nocivo após interação com organismo.

Droga: Toda substância capaz de modificar ou explorar o sistema fisiológico ou estado patológico. Utilizada com ou sem intenção de benefício do organismo receptor.

Fármaco: Substância de estrutura química definida, capaz de modificar ou explorar o sistema fisiológico ou estado patológico, somente em benefício do organismo receptor. Como conhecemos, é o princípio ativo de um medicamento, que tem ação terapêutica cientificamente comprovada.

Intoxicação: Conjunto de sinais e sintomas que evidenciam o efeito nocivo produzido pela interação entre agente tóxico e organismo.

Antídoto: Agente capaz de antagonizar os efeitos tóxicos das substâncias.

Ação tóxica: Maneira pela qual um agente tóxico exerce sua atividade sobre as estruturas teciduais.

As aplicações da toxicologia

Como deu para perceber até aqui, compreender o que é a toxicologia e como os agentes químicos agem no nosso corpo é fundamental. Serve, inclusive, para estabelecer quais os cuidados que devemos ter quando entramos em contato com agentes químicos.

>Veja também: Segurança Química e Gerenciamento de Produtos Químicos

Mas quando falamos em agentes químicos, o que sempre vem na mente da maioria das pessoas são produtos de uso industrial. Só que, na verdade, estamos expostos a diversos produtos químicos. Eles vão desde os produtos de limpeza que manuseamos em nossas casas, até produtos de higiene pessoal, para a construção civil como cimento, colas adesivas e tintas.

Então, com essa explicação, é possível analisar a toxicologia aplicada a diferentes setores.

1. Toxicologia aplicada na área ocupacional – ajuda a avaliar os perigos dos produtos químicos manuseados nos ambientes de trabalho. Com isso, é possível estudar o risco e propor as medidas de segurança necessárias para que os trabalhadores não sofram danos à sua saúde.

2. Toxicologia aplicada na área social – é voltada para avaliar os efeitos nocivos que as drogas de abuso e medicamentos (de uso não médico) provocam nos usuários. Por exemplo, o que a cocaína provoca no organismo de um dependente químico, assim como a heroína, o LSD e os demais.

3. Toxicologia voltada à dopagem – aqui observa-se o uso de substâncias químicas como meios artificiais para alterar o desempenho físico e/ou intelectual de atletas em competição.

 

4. Toxicologia dos alimentos – visa estabelecer quais os efeitos nocivos causados pela ingestão de alimentos. Os compostos químicos podem ser classificados naqueles naturalmente presentes nos alimentos (cianogênicos, alcalóides), nos contaminantes (micotoxinas, metais, praguicidas, hormônios), e nos aditivos (conservantes, aromatizantes, corantes).

5. Toxicologia ambiental – tem objetivo de avaliar o impacto da contaminação para o ambiente. Seja de, forma acidental ou intencional, decorrente das atividades humanas, como por exemplo a poluição do ar proveniente dos automóveis e indústrias. Além de avaliar o impacto dos agentes químicos nos organismos presentes nos ecossistemas.

>Veja mais:
Acidentes químicos e nucleares e percepção de risco
Ácido Fluorídrico e Fluoreto – Aspectos Toxicológicos

Toxicologia e a sociedade

Como você pode perceber, entender o que é toxicologia é de grande importância para a sociedade. Uma ciência fundamental para estabelecer um equilíbrio na adoção e no uso de agentes químicos. Portanto, é possível colher os benefícios que estes agentes trazem para as nossas vidas. Pois os químicos estão presentes em tudo no dia a dia e, com isso, podemos aproveitar o melhor que esses compostos podem nos oferecer.

Por: Camilla Colasso e Gabriel Duque

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