Chemical Risk

atendimento@chemicalrisk.com.br
+55 (11) 4506-3196 / (11) 94732-0686 / (11) 94706-2278

Gás lacrimogêneo: conheça a toxicologia do gás e os efeitos

Por Camilla Colasso e Felipe Oppenheimer Torres

O gás lacrimogêneo (do latim lacrima = lágrima) se caracteriza pela dor e irritação nos olhos, como é normalmente conhecido. Mas também provoca abundante fluxo de lágrimas, rinorreia, irritação na pele, contração involuntária das pálpebras (cegueira temporária) e depressão respiratória. 

Os seus impactos não param por aí. Uma vez que o agente químico lacrimogêneo é debilitante, pois diminui a capacidade combativa do indivíduo. No entanto, o gás possui efeitos temporários, não causando a morte nem a incapacitação prolongada, desde que utilizados de forma adequada. 

Os efeitos fisiológicos surgem praticamente de modo imediato após a exposição. E, dependendo do agente químico lacrimogêneo utilizado e sua concentração, os efeitos podem persistir por até 50 a 60 minutos.

Leia também: Toxicologia dos gases irritantes: riscos de exposição e efeitos prejudiciais à saúde

Como se define o gás lacrimogêneo?

O conceito legal de agente químico lacrimogêneo está previsto no Decreto nº 2.977 de 1º de março de 1999. Este decreto foi o responsável por recepcionar no Brasil a Convenção Internacional sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção, Estocagem e Uso de Armas Químicas e sobre a Destruição das Armas Químicas Existentes no Mundo, assinada em Paris, em 1993.

A convenção não faz menção à nomenclatura de agente químico lacrimogêneo, mas sim o agente de repressão de distúrbios. Trata-se de qualquer substância química que possa rapidamente produzir nos seres humanos irritação sensorial ou efeitos incapacitantes físicos. O que, em pouco tempo, desaparece após concluída a exposição ao agente.

Por este documento, fica proibido o uso de gás lacrimogêneo em guerras. Esta proibição se dá por dois motivos: 

  • Uso do lacrimogêneo por algum dos países em guerra pode ocasionar uma retaliação com um agente químico de guerra muito mais tóxico, como por exemplo, neurotóxico ou hemotóxico; 
  • Na Guerra do Vietnã, os Estados Unidos utilizavam agentes químicos lacrimogêneos para fazer com que os soldados do exército vietnamita, escondidos em cavernas, saíssem dos seus esconderijos e, assim, fossem mortos ou capturados.

Utilização dos gases lacrimogêneos

O primeiro registro da utilização desta classe de agente químico remonta ao final do século XV, mais precisamente 1492. Nesta época, os índios mexicanos queimavam a pimenta em óleo com o intuito de criar uma fumaça lacrimogênea e tóxica.

Outro registro dos primórdios do gás lacrimogêneo se deu na época do Brasil colônia. Neste caso, os índios Tupinambás, do nordeste brasileiro, descobriram que, ao queimar a pimenta, a fumaça produzida pela queima tinha o efeito fisiológico lacrimogêneo. Assim, os seus inimigos tinham que abandonar as posições defensivas.

Contudo, foi, no século XX, que os agentes lacrimogêneos começaram a ser utilizados em larga escala. O gás passou a servir para controle de distúrbios civis, agente químico de guerra, treinamentos e exercícios militares. 

Os tipos de agentes lacrimogêneos mais utilizados

  • Cloroacetofenona (CN)
  • Ortoclorobenzilmalononitrilo (CS)

Atualmente, é o gás lacrimogêneo mais utilizado no mundo devido à sua baixa toxicidade e alta eficiência, em relação aos agentes químicos usados no passado.

  • Dibenzoxazepina (CR)

Mais novo agente químico lacrimogêneo, é mais potente e menos tóxico que o CN e o CS, sendo considerado 5 (cinco) vezes mais potente que o CS.. 

Principais efeitos do gás lacrimogêneo à saúde humana

 

  • Efeitos oftalmológicos 

 

No caso do CN e do CS, os olhos são um alvo importante para os efeitos tóxicos de curta duração dos agentes lacrimogêneos. A toxicidade ocular provocada pelos lacrimogêneos pode variar em severidade do eritema conjuntival à necrose ocular. 

Os efeitos mais importantes provenientes da exposição aos lacrimogêneos são: lacrimação, eritema/edema conjuntival, blefarite e eritema. Os sinais tóxicos podem incluir edema periorbital, blefarospasmo ou espasmos durante o fechamento da pálpebra, apraxia de abertura da pálpebra, oftalmodinia, lesão da córnea e necrose ocular. 

Os problemas oculares tendem a ser mais severos em vítimas de exposição aos lacrimogêneos se estiver usando lentes de contato. O desenvolvimento de eritema e edema podem durar até 48h e depois vascularizar. 

A recuperação ocorre dentro de 15 a 30 minutos após a exposição, mas alguns sinais como eritema das margens das pálpebras e fotofobia podem persistir por mais tempo. A conjuntiva pode parecer injetada ou até mesmo avançar para conjuntivite fulminante e visão turva para alguns lacrimogêneos, incluindo o CS.

No caso do CR, um dos principais efeitos observados foi sua intensa atividade como lacrimogêneo. A aplicação de uma solução de CR (0,01% a 0,1%) provocava oftalmodinia imediata, lacrimejamento e blefarospasmo, semelhante ao CN e ao CS. 

Normalmente, os efeitos tendem a persistir entre 15 a 30 minutos antes de diminuir. Entretanto, a blefarite (edema das pálpebras), edema periorbital e conjuntiva podem durar até 6 h.

 

  • Efeitos nasais/nasofaríngeo 

 

Os compostos lacrimogêneos provocam sintomas orais e nasais imediatamente após a exposição. A exposição ao CN e ao CS por via inalatória provoca rinorréia, espirros e sensação de dor ardente por segundos. 

Após o contato oral com aerossóis (pó ou solução), causa sensação de queimação e há aumento de salivação. A salivação, faringite e a glossalgia ocorrem em poucos minutos após a exposição.

A aplicação de uma solução de CR (0,01% a 0,1%), quando espirrado na região bucal, provoca salivação, queimação da língua e alteração do paladar durante vários minutos. O contato com a solução por meio de borrifos, pode provocar irritação nasal e rinorreia.

 

  • Toxicidade respiratória

 

Os compostos CS e CN podem ser disseminados na forma de aerossol em pó ou solução. Assim, a via mais comum de exposição ao CS e ao CN é por meio da absorção inalatória. A inalação destes compostos provoca queimação e irritação das vias aéreas. O que causa tosse, aperto no peito, dispneia, falta de ar, broncoespasmo e broncorreia.

Espera-se que um indivíduo que se exponha a um agente lacrimogêneo tenha uma exacerbação de alguma doença pulmonar subjacente, como asma, enfisema ou bronquite. Há relatos de pessoas com doença pulmonar crônica e asma, que ao serem expostas ao CS tiveram os efeitos exacerbados.

Leia também: Ácido Fluorídrico e Fluoreto – Aspectos Toxicológicos

 

  • Toxicidade gastrointestinal 

 

Muitas análises afirmam que os efeitos gastrointestinais não ocorrem após a exposição inalatória aos agentes. No entanto, náuseas, vômitos e alterações no gosto são comuns nos casos clínicos de exposição ao CS e ao CN. 

O desenvolvimento de vômitos e emêse tende a ocorrer em indivíduos mais sensíveis, concentração suficientemente alta, exposição prolongada, distância próxima da fonte de exposição ou em espaço confinado. 

A inalação aos agentes lacrimogêneos geralmente desenvolve parageusias ou alteração do paladar. Em particular, uma sensação de sabor metálico é frequentemente relatada.

 

  • Toxicidade dérmica 

 

Os compostos CN e CS são irritantes primários do sistema tegumentar, capazes de provocar queimaduras de primeiro e segundo graus. Baixas concentrações desses agentes causam eritema, prurido, edema subcutâneo, parestesias e/ou sensações de queimação em áreas expostas da pele, em poucos minutos. 

O desenvolvimento de eritema é frequentemente o primeiro sinal de dermatite de contato e ocorre minutos após a exposição, diminuindo em torno de uma hora após a exposição. Os danos provocados pelo gás lacrimogêneo na pele são semelhantes aos efeitos do agente mostarda

Caso a pele esteja molhada ou machucada, os efeitos tóxicos sob a pele serão mais acentuados. A exposição a doses mais elevadas provoca uma piora no desenvolvimento do eritema, edema e vesiculação com bolhas (observados algumas horas após a exposição) e febre. 

A extensão dos efeitos tóxicos sob a pele, depende da espessura do estrato córneo e do tempo de exposição. Além disso, o contato com água em até 48h após a exposição pode exacerbar os sintomas dolorosos sob a pele. 

Tratamento médico e descontaminação

Quando alguém é exposto a algum tipo de gás lacrimogêneo, alguns cuidados devem ser tomados para a descontaminação. Na hipótese de alguma complicação mais grave, algumas medidas devem ser adotadas, conforme descrito.

Deve-se remover as roupas contaminadas, assim que possível, colocando-as em um saco plástico até serem lavadas. Preferencialmente, em água fria para reduzir a vaporização do agente. 

O uso de roupa contaminada irá aumentar o contato da pele com o agente químico, elevando, assim, o risco de efeitos fisiológicos mais graves.

Deve-se descontaminar a pele com sabão neutro ou detergente e água em grande quantidade para se obter um alívio imediato dos efeitos fisiológicos. A lavagem somente com água não é totalmente eficaz, pois não é capaz de retirar por completo o agente químico da pele.

Já o sabão ajuda a retirar as partículas secas do agente químico e removê-las adequadamente da superfície da pele.

Também é importante retirar todos os cosméticos e lentes de contato durante a descontaminação. Isso porque o agente químico lacrimogêneo pode ficar impregnado neles.

Se a contaminação ocorrer em ambiente confinado, uma ventilação mais severa ajuda a remover o agente químico.

Cuidados com gás lacrimogêneo nos olhos

A exposição ao agente químico lacrimogêneo pode resultar em danos na córnea, uma vez que a pessoa, ao esfregar os olhos, pode ocasionar pequenas ranhuras na córnea. Desta forma, o indivíduo em hipótese alguma deve esfregar os olhos. 

Se os sintomas perdurarem mais de uma hora, é recomendável a consulta a um oftalmologista. Porém, se houver alguma perda epitelial ou necessidade de utilizar glicocorticóides devido a uma inflamação permanente no olho, deverá ser usado anticolagenase.

Uma avaliação de eventual lesão nos olhos deve incluir o exame de lâmpada de fenda (biomicroscópio ocular), usando coloração com fluoresceína para examinar se houve alguma lesão na córnea.

Pode ser utilizado um anestésico local para dores mais intensas nos olhos. No entanto, o uso continuado deve ser restringido.

Leia também: Gases asfixiantes: os perigos à saúde humana

Cuidados com gás lacrimogêneo na pele

O contato mais prolongado com algum tipo de agente lacrimogêneo ou em concentração elevada pode acarretar uma dermatite primária. Neste caso, o tratamento administrado deverá ser para queimadura química. Quando houver apenas vermelhidão, não há necessidade de tratamento específico. 

Erupções vesiculares ou bolhas deverão ser tratadas com antibióticos tópicos para prevenir infecções secundárias. Na hipótese de ocorrer queimaduras extensas, grandes bolhas ou queimaduras de segundo ou terceiro grau, deverá ser aplicada solução de sulfadiazina de prata. 

Em casos mais graves de exposição, deverá ser ministrada prednisona via oral. Na hipótese de uma dermatite de contato alérgica, glicocorticóide tópico na maioria das vezes tem um efeito eficaz no tratamento. Os pacientes com bolhas deverão ser tratados como havendo queimaduras de segundo grau.

Pacientes com dermatite aguda de contato que contém secreção deverão ser tratados com curativos molhados por 30 minutos, três vezes ao dia. Esteroides tópicos devem ser aplicados imediatamente após os curativos molhados. Antibióticos devem ser ministrados para evitar infecções secundárias e anti-histamínicos para as coceiras. 

Cuidados com gás lacrimogêneo no sistema respiratório

A inalação dos lacrimogêneos pode resultar na irritação das vias aéreas e, em casos de exposição aguda, danos no pulmão e edema pulmonar, ou até mesmo parada respiratória. 

Algumas terapias foram desenvolvidas em ambientes controlados e se provaram ineficazes em prevenir irritação nas vias aéreas, incluindo antibióticos profiláticos e atropina. 

O gás lacrimogêneo inalado em elevada concentração também provoca broncoespasmo. Os broncodilatadores são eficazes no tratamento. 

Os indivíduos com problemas respiratórios crônicos (asma, bronquite, entre outros), não devem ser submetidos aos agentes lacrimogêneos. Contudo, esta restrição só é possível em ambiente controlado. Por exemplo, em situações de controle de distúrbio civil, tal preocupação com os integrantes da multidão não é possível.

A administração de glicocorticóide sistêmico pode ser eficaz no tratamento de edema pulmonar causado por uma exposição a elevada concentração a algum lacrimogêneo.

Como evitar problemas no manuseio dos agentes lacrimogêneos?

Se a sua empresa possui substâncias químicas precursoras de armas químicas e outros agentes químicos, como o gás lacrimogêneo, é importante contar com uma consultoria especializada em gestão química.

A Chemical Risk conta com profissionais especializados e altamente capacitados para fazer essa assessoria na sua organização.  

Temos os serviços de consultoria em segurança química e a assessoria sobre uso de agentes precursores de armas químicas.

Além disso, temos outras soluções para ajudar a sua companhia, como o curso de manuseio de produtos químicos, a elaboração de documentos de segurança química e muito mais.

Ficou interessado? Entre em contato conosco hoje mesmo e solicite uma cotação!

Gostou deste artigo?

Share on facebook
Share on Facebook
Share on twitter
Share on Twitter
Share on linkedin
Share on Linkdin
Share on pinterest
Share on Pinterest

comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *